CHAMADA DE ARTIGOS - História. Revista da FLUP - N. 10. (1)

A História – Revista da FLUP dedica o dossiê temático do seu primeiro volume do ano de 2020 ao período de 1918-39, as duas décadas que transcorrem entre as guerras mundiais, que constituíram um período muito intenso da história humana, repleto de grandes contradições que nos continuam a interpelar cem anos depois do início daquele período.

1918-19 foram não só os anos das grandes ilusões sobre a construção da paz e o reconhecimento do direito de autodeterminação dos povos, como também o foram do afogamento em sangue das muitas revoluções e movimentos insurrecionais, muitos deles de natureza anticolonial, que surgiram nos pontos mais variados do mundo, trazendo para a ribalta política as mesmas massas que, arrastadas à força para combater e produzir para a mais terrível guerra que até então tinha sido declarada, reclamavam para si o direito a decidir o seu futuro.

A mesma crise do sistema liberal oligárquico que parecia permitir avançar decisivamente no sentido da democratização abriu também caminho ao fascismo e a agendas expansionistas de reordenamento da dominação imperialista do mundo, que ajudam a explicar a II Guerra Mundial. Porque, afinal, foi das ruínas da guerra para acabar com todas as guerras que acabariam por surgir as condições para desencadear outra pior ainda, num salto qualitativo na história da devastação humana e material de muito difícil mensuração.

Para o dossiê “Entre guerras mundiais (1918-1939): entre a paz e a guerra, crise do sistema liberal, Revolução e fascismo”, convidamos à apresentação de propostas em torno de cinco grandes temáticas:

1. Revoluções: um ciclo de «revoluções contra a guerra» (Rússia e México, 1917; Alemanha, Baviera e China, 1918-19 e 1923; Hungria, 1919; Finlândia, 1918-19; Itália, biennio rosso de 1919-20; Espanha, triénio bolchevique de 1917-19; Bulgária, 1923; ...), quase todas esmagadas em sangue (guerra civis na Rússia, Finlândia, Hungria). Como sublinhou Eric Hobsbwam, a Revolução de Outubro de 1917 «tornou-se um acontecimento tão central da história do século XX quanto a Revolução Francesa o foi do séc. XIX», ainda que «as consequências práticas de 1917 tenham sido de longe muito maiores e duradouras que as de 1789»

2. Democratização: rutura dos impérios autoritários da Europa Central e Oriental (russo, alemão, austro-húngaro e otomano) e evolução democratizante do liberalismo oligárquico do que havia sido o longo século XIX: novos regimes republicanos, alargamento do sufrágio universal às mulheres, cooptação dos partidos e dos sindicatos socialdemocratas e democrata-cristãos reformistas para a esfera do poder, esboço de políticas sociais públicas para conter a reivindicação operária, mas agravando a cisão do movimento operário entre comunistas, socialdemocratas e o sindicalismo revolucionário de tendência anarquista (especialmente em Portugal e Espanha); tentativas de reconstituição da unidade da esquerda operária (Frentes Populares, 1935-38) serão sempre uma exceção até 1941.

3. As ilusões e contradições da paz: o ensaio de um Direito internacional tendencialmente democrático, com a criação da Sociedade das Nações (SDN), o aparente triunfo do reconhecimento internacional do direito dos povos a disporem de si próprios e da rejeição do recurso à força e o princípio da sanção coletiva dos agressores, foi acompanhada do reforço da dominação colonial pelas potências vencedoras, da não integração dos derrotados (Alemanha até 1926), do boicote à União Soviética (até 1934), do isolacionismo norte-americano e da manutenção de práticas de diretório na gestão do sistema internacional. O revisionismo internacional fascista e o fracasso da SDN na Etiópia ou em Espanha marcam o fim de uma ordem internacional que, afinal, nunca terá tido em Genebra verdadeiramente a sua sede.

4. Belicismo/irracionalismo vs. pacifismo: a experiência da guerra produz, entre uma geração perdida de excombatentes, quer o empenho num pacifismo internacionalista (Barbusse, Remarque, ...), à esquerda, quer o milicianismo de ultradireita (Fasci di Combattimento, Freikorps, Stahlhelm, Croix de Feu, …). O mal-estar cultural (Freud) e os movimentos irracionalistas no universo intelectual e religioso, anteriores à I Guerra Mundial, saem dela enormemente reforçados.

5. Crise do sistema liberal, fascismo e socialismo: a reconversão da economia do pós-guerra é acompanhada da dependência face os EUA e da generalizada concentração capitalista, fenómenos que ameaçam de proletarização as novas classes médias, gradualmente abertas, quer no pós-guerra, quer sobretudo durante a Grande Depressão (1929-36), a novas retóricas de anticapitalismo reacionário (corporativismo, nacionalismo económico), coerentes com um neonacionalismo exacerbado, o militarismo e uma radicalização eugenista do racismo. Toda a evolução democratizante será pervertida pelas derivas autoritárias do sistema liberal. É neste sentido que se falará do período de entre guerras mundiais como a Era do Fascismo e, necessariamente, da emergência do antifascismo. Se o enfrentamento entre os dois não está na origem direta da II Guerra Mundial, é ele, contudo, que dá sentido à grande coligação aliada das Nações Unidas que derrotam a nova ordem fascista em 1945.

 

Manuel Loff (Faculdade de Letras da Universidade do Porto e Instituto de História Contemporânea/NOVA)

Filipe Piedade (Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto e Instituto de História Contemporânea/NOVA )

Carlos Zacarias de Sena Júnior (Universidade Federal da Bahia)