Do doce ao delito
Etnografia da porosidade entre trabalho infantil e ato infracional
Palavras-chave:
Etnografia; Trabalho infantil; Precariedade estrutural; Ilegalismos; Sujeição criminalResumo
O artigo apresenta e analisa a trajetória de vida de Enzo1 – a partir da sua própria narrativa – um adolescente brasileiro acompanhado por meio de metodologia etnográfica durante o cumprimento de medida socioeducativa (MSE) em meio fechado e, posteriormente, em meio aberto. Revela como a precariedade estrutural impeliu o adolescente ao trabalho infantil iniciado com venda de doces nas ruas aos nove anos. Destaca a porosidade das fronteiras que envolve trabalho infantil entre o informal, o ilegal e o ilícito, demonstrando que a transição para atos infracionais não é uma ruptura, mas uma intermitência que se configura enquanto busca pela subsistência em territórios marcados pela violência policial e pela ausência do Estado na forma protetiva. Enzo vivencia o paradoxo de acessar direitos básicos, como alimentação regular e moradia salubre, apenas quando privado de liberdade. Conclui-se que a medida socioeducativa evidencia a ineficiência do sistema de garantia de direitos, que falha em interromper ciclos de vulnerabilidade antes que a repressão policial e a sujeição criminal se tornem a principal forma de presença estatal na vida dessas crianças e adolescentes.
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