O desdobramento da alma em direção ao belo: preleções no Livro sexto do diálogo Sobre a Música de Agostinho de Hipona

Autores

  • Nilo Silva

Resumo

A nossa investigação visa propor uma breve reflexão sobre Livro VI do De musica (387-391) de Agostinho de Hipona. Pretende-se à luz da filosofia submeter em análise as principais linhas de argumentos sobre o desdobramento da alma no seu itinerário a Deus, em analogia aos ritmos e harmonias da arte musical. Evidentemente que o encontro entre a filosofia helenística e o cristianismo nos primórdios da Patrística se deu através de muitas recursas, porém com algumas aquiescências da parte da Patrologia latina. Neste âmbito, o pensamento de Agostinho de Hipona deve ser considerado uma referência da síntese da filosofia helenística na tradição latina. Não há dúvida que a referência neoplatônica esteve presente de forma singular na filosofia de Agostinho, não apenas como um ingrediente de sua evolução intelectual e espiritual, culminante na sua conversão, mas foi também o instrumento pelo qual e, exclusivamente por meio dele, o seu pensamento se formou. De fato, percebe-se que o pensamento de Agostinho é uma síntese da cultura helenística incorporada na latinidade, embora essa característica não esteja devidamente explícita em algumas de suas obras e no decurso de sua história, exigindo de nossas interpretações um exame mais atento e apurado. No decurso da leitura livro VI do De musica podemos identificar três aspectos importantes: i) A princípio, Agostinho propõe o desdobramento da alma a partir das sensações. O percurso da reflexão perpassa a via da educação dos sentidos com o objetivo de alcançar a transcendentalização perceptivo-sensorial, de modo que Agostinho pretende demonstrar que os movimentos e rítmos da música estão em analogia aos ritmos da alma movidos por um desejo natural de contemplar a Deus; ii) Para realizar tal percurso de ascensão da alma, Agostinho identifica no neoplatonismo a noção de espiritualização como atividade essencial da vida íntima da alma, de tal forma que o diálogo está impregnados da especulação plotiniana sobre a concepção de unidade, ordem e ser, sempre relacionadas a noção de Deus como inefável; iii) O pressuposto agostiniano ao descobrir na alma as harmonias corporais através das sensações, sons e palavras em analogia à harmonia eterna, sustenta, de certo modo, a sua noção de perfeição invisível de Deus como aquele que se revela a nós nas coisas criadas.
Palavras-chave: Agostinho, Alma, Beleza, Neoplatonismo

DOI: https://doi.org/10.21747/civitas/8a3

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Publicado

2021-08-04

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Artigos