A sintaxe de regência em Regras da lingua portugueza (1725) e Arte da grammatica da lingua portugueza (1770): um estudo comparativo

Autores

  • Guendalina Gianfranchi Faculdade de Letras da Universidade do Porto

Resumo

Duas gramáticas, Regras da lingua portugueza de Jeronymo Contador de Argote (1721; 1725) e Arte da grammatica da lingua portugueza de António José dos Reis Lobato (1770), destacam-se entre as obras produzidas até ao século XVIII. A gramática de Argote foi a primeira, em língua portuguesa, a receber mais de uma edição durante a vida do autor (Kemmler, 2012) e marca uma rutura com o modelo jesuítico de ensino do latim (Moura, 2011). A Arte de Lobato, por sua vez, ultrapassou quarenta edições e figura entre os primeiros manuais destinados ao ensino público do português (Kemmler, 2005). Ambas se distinguem também pelas amplas secções dedicadas à sintaxe. Este estudo compara a abordagem dos autores à regência nominal e verbal, com foco nos casos genitivo, dativo, acusativo e ablativo. Na Syntaxe de reger, Argote separa a regência dos nomes da dos verbos. Para nomes, categoria que inclui substantivos e adjetivos, distingue seis casos (nominativo, genitivo, dativo, acusativo, vocativo e ablativo) e dedica um capítulo a cada um, exceto nominativo e vocativo. Lobato, ao contrário, organiza cada caso numa Lição, regido por verbo ativo ou por preposição, subdividida em regras. Em Argote, as preposições têm papel limitado na regência, exceto no ablativo; no genitivo, por exemplo, o adjetivo atua como regente (Argote, 1725). Em Lobato, a preposição é central e surge na primeira regra de cada caso, sendo apresentada como elemento regente, como no genitivo, regido por de (Lobato, 1770). O estudo evidencia a relevância destas gramáticas e aprofunda a compreensão das conceções sobre o funcionamento da língua portuguesa no período.

Referências

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Publicado

2026-01-16

Como Citar

Gianfranchi, G. (2026). A sintaxe de regência em Regras da lingua portugueza (1725) e Arte da grammatica da lingua portugueza (1770): um estudo comparativo. Linguística: Revista De Estudos Linguísticos Da Universidade Do Porto, 20, 64–91. Obtido de https://ojs.letras.up.pt/index.php/EL/article/view/15294