Descrevendo a sintaxe interna das construções com "demais" em português

Autores

  • Fábio Barcellos Granja Utrecht University; Meertens Instituut

Resumo

Em português, o locus típico dos modificadores de grau do sintagma adjetival é antes do adjetivo: isto tem sido tradicionalmente representado por um sintagma grau com um núcleo que contém um modificador de grau e c-comanda um sintagma adjetival (Martinho, 2007). Tal generalização está bem fundamentada na teoria (Abney, 1987; Corver, 1997) e funciona bem para descrever a sintaxe interna de construções com modificadores como "muito", "bastante" ou "demasiado". No entanto, ela é insuficiente para explicar o comportamento de “demais”, um modificador de grau que é invariavelmente gerado após o adjetivo que modifica. Neste estudo, pretendemos abordar esse problema investigando a motivação por trás da localização aparentemente excecional de “demais”. Além disso, apresentamos uma nova estrutura que explica a estrutura interna desse padrão. Propomos que o principal factor que faz com que "demais" ocorra após adjetivos é que está lexicalmente especificado para tal. A explicação para isso pode estar na sua etimologia: deriva do latim valde magis 'especialmente'. A evolução dessa expressão para "de magis" no latim vulgar (Adams, 2007) indica que o seu elemento inicial de- foi reanalisado como uma preposição. Ao alinhar este facto com a noção de que, em português, os modificadores preposicionais seguem normalmente os adjetivos que modificam, estabelecemos que existe um elemento preposicional residual em demais que causa o seu comportamento excecional. Com base nisto, argumentamos que, para que demais modifique um adjetivo, são necessários três passos: i) o elemento -mais é gerado no especificador do sintagma adjetival; ii) o elemento preposicional de- é gerado como núcleo de um sintagma de grau, que c-comanda o sintagma adjetival; iii) o adjetivo move-se do núcleo do sintagma adjetival para o especificador do sintagma de grau, alcançando assim uma posição anterior a "demais". Embora isso envolva um movimento de núcleo para especificador, que é marcado em muitas abordagens, há certas condições sob as quais ele pode ocorrer (Vicente, 2007), e concluímos que esta é uma delas. Tal estrutura tem poder explicativo suficiente para justificar o padrão anómalo de "demais" seguir o adjetivo que modifica.

Referências

Abney, S. P. (1987). The English noun phrase in its sentential aspect [PhD thesis]. Massachusetts Institute of Technology.

Adams, J. N. (2007). The Regional Diversification of Latin, 200 BC - AD 600. Cambridge University Press.

Brito, A. M. (1993). Aspects de la syntaxe du SN en portugais et en français. Revista da Faculdade de Letras: Línguas e Literaturas, 10, 25- 53. https://ojs.letras.up.pt/index.php/rll/article/view/8342

Brito, A. M. & Matos, G. (2003). Construções de graduação e comparação. In M. H. M. Mateus, A. M. Brito, I. Duarte, I. H. Faria (Eds.), Gramática da Língua Portuguesa (pp. 353–424). Caminho.

Chomsky, N. (1995). The Minimalist Program. MIT Press.

Chomsky, N. (2001). Derivation by Phase. In M. Kenstowicz (Eds.). Ken Hale, A Life in Language (pp. 1-52). MIT Press.

Corver, N. (1997). The internal syntax of the Dutch adjectival projection. Natural Language and Linguistic Theory, 15(2), 289-368. https://www.dbnl.org/tekst/corv002inte01_01/

Corver, N. (2013). Lexical categories and (extended) projection. In M. den Dikken (Ed.), The Cambridge Handbook of Generative Syntax (pp. 353–424). Cambridge University Press.

Fábregas, A. (2020). The syntax and semantics of degree expressions in Spanish. Borealis: An International Journal of Hispanic Linguistics, 9 (2), 1-112. http://dx.doi.org/10.7557/1.9.2.5575

Gaffiot, F. (1934). Dictionnaire latin-français. Hachette. https://digital-gaffiot.sourceforge.net/D.html

Jackendoff, R. (1977). X Syntax: a study of phrase structure. MIT Press.

Martinho, F. (2007). Sintaxe e Semântica dos Adjectivos Graduáveis em Português [PhD thesis]. Universidade de Aveiro. https://sweet.ua.pt/fmart/CorpoTese.pdf

Martins, A. M. (Coord.). (2022). CORDIAL-SIN: Corpus Dialetal para o Estudo da Sintaxe / Syntax-oriented Corpus of Portuguese Dialects. Lisboa, CLUL. https://www.clul.ulisboa.pt/projeto/cordial-sin-corpus-dialectal-para-o-estudo-da-sintaxe

Raso, T., & Mello, H. (Eds.). (2012). C-oral-Brasil I: corpus de referência do português brasileiro falado informal. Editora UFMG.

Siloni, T. (1998). Adjectival constructs and inalienable constructions. Themes in Arabic and Hebrew Syntax. https://www.tau.ac.il/~siloni/AdjectivalConstructs2002.pdf

Talić, A. (2015). Adverb extraction, specificity, and structural parallelism (pre-publication version). Canadian Journal of Linguistics, 60, 417-454.

Travis, L. (1984) Parameters and Effects of Word Order Variation [PhD thesis]. Massachusetts Institute of Technology.

Vicente, L. (2007). The Syntax of Heads and Phrases - A study of verb (phrase) fronting [PhD thesis]. Leiden University. www.lotpublications.nl/Documents/154_fulltext.pdf

Downloads

Publicado

2026-01-16

Como Citar

Barcellos Granja, F. (2026). Descrevendo a sintaxe interna das construções com "demais" em português. Linguística: Revista De Estudos Linguísticos Da Universidade Do Porto, 20, 45–63. Obtido de https://ojs.letras.up.pt/index.php/EL/article/view/15326