A palavra mínima em português brasileiro: contribuições para uma discussão em aberto
Resumo
Hayes (1995) se refere a uma “síndrome da palavra mínima”, segundo a qual, em determinadas línguas, as palavras não podem ser menores do que um tamanho definido a partir da configuração prosódica de tais línguas. Na literatura, normalmente, a palavra mínima é associada à exigência de que uma palavra tenha ao menos duas moras, e esta exigência pode ser minimamente satisfeita por uma palavra dissilábica apenas, em línguas insensíveis ao peso, ou também por uma palavra monossilábica com uma vogal longa (em línguas em que tal vogal tem caráter distintivo) ou com coda, em línguas que mostram sensibilidade ao peso silábico. Para McCarthy e Prince (1995), a palavra mínima é o resultado da hierarquia prosódica e da condição do pé binário. Em português, ao contrário do que ocorre em outras línguas, como o inglês, não há clareza quanto à atuação da exigência da palavra mínima. Na literatura, é possível encontrar argumentos favoráveis e contrários à sua relevância para a configuração prosódica do português. É neste cenário que o presente trabalho busca contribuir para esta discussão a partir da análise de argumentos favoráveis e contrários a uma bimoraicidade mínima imposta às palavras em português brasileiro. Bisol (2000) e Vigário (2003), para o português brasileiro e o europeu, respectivamente, defendem que a palavra mínima bimoraica não tem papel, uma vez que há palavras monossilábicas sem coda. Booij (2004), por sua vez, ressalta que estas palavras são pouco numerosas, de maneira que este argumento não tem validade para o autor. Ainda quanto aos argumentos de Bisol (2000) e Vigário (2003), segundo as autoras, não há processos fonológicos que sejam aplicados para que uma palavra bimoraica emerja e, também, não há processos fonológicos que deixem de ser aplicados para que uma palavra não bimoraica emerja. A literatura referente ao português brasileiro, entretanto, mostra que a hipocorização pode ser compreendida como um fenômeno a partir do qual se superficializam palavras bimoraicas (Gonçalves, 2004a, entre outros), e a análise de fenômenos variáveis revela que alguns deles têm a sua aplicação refreada caso ela resulte em uma palavra monomoraica. Cabe mencionar que, mesmo entre os autores que defendem a imposição de um tamanho mínimo para as palavras em português, não há consenso quanto a como este tamanho se configura, com propostas que levam em consideração estruturas como a sílaba, o pé ou até mesmo a quantidade de segmentos. Desta forma, destaca-se a necessidade de trabalhos que sejam metodologicamente orientados para uma busca por evidências contrárias ou favoráveis à atuação da palavra mínima em português.
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