A raça como crime cívico

Autores

  • Loic Wacquant

Resumo

Ao assumir  um papel central no governo pós-keynesiano  da divisão racial e da pobreza, o crescente sistema carcerário tornou-se uma força preeminente na (re)for­ mação da raça e da cidadania  nos Estados Unidos da América. Não só significa  mas também   reforça a negritude através da sua fusão prática da cor com criminalidade  e violência desviada.  Da mesma maneira que a escravatura  resultou na "morte  social" dos cativos africanos importados e dos seus descendentes,  o encarceramento massivo dos  Afro-Americanos   induz  a  morte  cívica  daqueles  que  enreda  através  da  sua exclusão  do  contrato  social.  Os  reclusos  são  o  alvo  de  um  triplo  movimento  de fechamento excludente que lhes nega o acesso a capital cultural institucionalizado,  que os afasta da redistribuição social e que os incapacita da participação politica. Os estatutos da privação criminal dos direitos de voto que proíbem este ultimo a quase 2 milhões de americanos  (re)colocam-nos  no papel histórico de antítese viva do "modelo americano".  A estreita relação entre a retórica e a politica de expurgação politica dos condenados  no fim do seculo e as da exclusão dos Negros em épocas mais remotas sugere  que a negritude  e mais bem compreendida  como o crime cívico  primevo da América, de acordo com a concepão durkheimiana  do crime enquanto "um acto" que "ofende  estados fortes da consciência  colectiva" - neste caso, a representação idealizada que a América tem de si própria como a terra prometida da liberdade, da igualdade e da auto-determinação. Ao reactivar e ao actualizar a lógica da infâmia racializada, a excomunhão criminal lembra-nos que a divisão de casta e um traço constitutivo e não o teratológico  do republicanismo americano. Da testemunho  da compleição estratificada  e restritiva da cidadania  americana no limiar do novo milénio.

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Publicado

2017-05-19