Eduardo Lourenço: a «coincidência dos opostos» e a «figura» do oxímoro

Autores

  • Maria Luísa Malato Borralho Instituto Literatura Comparada Margarida Losa

Resumo

PT

O Esplendor do Caos é um livro de Eduardo Lourenço que tem, desde logo no título, a expressão de um pensamento dialético. Todavia, não nos propõe um diálogo entre formas sucessivas de ortodoxia e heterodoxia, tese e antítese, regra e transgressão: antes a permanente e contemporânea tensão entre o Caos e a Ordem, valorizando o autor tanto o esplendor do Caos como a proporção da Ordem. Reúne ensaios dispersos por quase uma década e aproxima-se de livros colocados sobre idêntica desorganização (como Ocasionais, de 1984, ou Destroços, de 2004), mas pouco tem de ocasional ou disperso. Foi publicado em 1998, 500 anos depois da chegada de Vasco da Gama à Índia. Porém, parece propor-nos como modelo uma viagem sem rumo, uma aventura sem outra origem remota que não seja a própria aventura, ainda quando a finalidade é um imperium. É o caos ainda lugar de criação? O que é o esplendor do caos? Mera justaposição? Acaso significativo? Talvez Eduardo Lourenço nos perturbe por causa deste vasto oxímoro.

EN

O Esplendor do Caos is a paradigmatical book of Eduardo Lourenço that proposes us, right from the title, the expression of a dialectical thought. However, it does not propose us a dialogue between successive forms of orthodoxy and heterodoxy, thesis and antithesis, rule and transgression: rather the permanent and necessary tension between Chaos and Order, the author seems to value both the Splendor of Chaos and the Proportion of Order. It brings together essays scattered over almost a decade (like Ocasionais, in 1984, or Destroços, in 2004), but there’s little that’s occasional or scattered about it. It was published in 1998, 500 years after Vasco da Gama’s arrival in India. And yet we seem to be proposing an aimless journey as a model, an adventure with no origin other than the inorganic itself, even if the purpose is the imperium. Is Chaos still a place of creation? What is the Splendor of Chaos? Mere juxtaposition? Significant chance? Perhaps Eduardo Lourenço disturbs us because of this amplified oxymoron.

 

DOI: https://doi.org/10.21747/21836892/fil41a16

 

 

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Publicado

2025-04-25