Entre raízes e palavras
ecocrítica, oralidade e pensamento biológico em As Sementes do Céu, de Mia Couto
Palavras-chave:
literatura infantil; ecocrítica; oralidade; Mia Couto; formação de leitores.Resumo
O artigo analisa As Sementes do Céu, de Mia Couto, a partir da articulação entre literatura infantil, ecocrítica, oralidade e pensamento biológico, defendendo que a obra constrói uma ontologia relacional fundada na continuidade entre matéria e vida. Com base em Colomer, Petit, Zumthor, Candido, Mbembe e Glissant, evidencia-se a ruptura com dicotomias modernas (natureza/cultura; humano/não humano), ao atribuir agência à matéria, especialmente por meio da metáfora da madeira como vida em transformação. A análise destaca a figura do avô como mediador de saberes ancestrais, transmitidos pela experiência, pela escuta e pela convivência, em uma pedagogia sensível que integra corpo, linguagem e mundo. A dimensão oral e sonora, aliada à indissociabilidade entre palavra e imagem, configura uma epistemologia que privilegia a percepção e a relação como formas de conhecimento. A metáfora do semear organiza a narrativa e atinge seu ponto de inflexão no gesto ritual do avô, que, ao reconhecer o desequilíbrio ecológico, convoca a natureza e promove o retorno simbólico das madeiras à sua origem, configurando um ato de reparação. Na cena final, o neto assume a continuidade desse legado, deslocando o semear do plano material para o simbólico, como semeadura de palavras, memória e linguagem. Conclui-se que a obra articula uma experiência estética e ética que contribui para a formação de leitores sensíveis às interdependências entre natureza, cultura e linguagem, reafirmando a literatura como espaço de conhecimento, pertencimento e transformação.
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