Entre os estereótipos e a violência simbólica: a representação da mulher negra em O Cortiço
DOI:
https://doi.org/10.21747/21833958/red16a5Palavras-chave:
Violência simbólica, Estereótipos, Discurso, Mulher negra, EthosResumo
O presente artigo analisa a naturalização das violências simbólicas contra as personagens femininas promovida pela reprodução de estereótipos negativos, assim como a ausência de um protagonismo na cadeia discursiva para uma autodefinição. As figuras de Rita Baiana e Bertoleza, principais personagens femininas negras de O Cortiço, são examinadas enquanto projeções estigmatizadas, ora hipersexualizadas, ora reduzidas às funções domésticas, o que reflete uma lógica de dominação sobre esses corpos. Nesse sentido, por meio de um diálogo entre os campos das ciências sociais e da linguística, como os estudos de Bourdieu (2007; 2013; 1989), Maingueneau (2008; 2008a; 2008b), entre outros, analisa-se a opressão de gênero e de raça que perpassa as personagens, assim como a noção de ethos corrompido mobilizada para compreender como as mulheres negras são construídas a partir de estigmas herdados de um passado escravocrata, resultando na perpetuação de imagens negativas que ainda reverberam no imaginário social. Ao articular uma discussão interdisciplinar, o artigo busca contribuir para reflexões críticas sobre os efeitos sociais da representação de identidades racializadas na ficção brasileira oitocentista.
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